O ryokan
De todas as coisas maravilhosas e surpreendentes que existem neste país, um dos segredos mais bem escondidos do mundo exterior é o ryokan, geralmente definido como uma pousada japonesa. Eu não estou falando do ryokan simplezinho - mencionado em todos os guias de turismo, by the way - onde você simplesmente veste uma yukata (um quimono leve de verão), dorme num futon no quarto de tatami e come uma comidinha diferente e caprichadinha. Não que estes não sejam interessantes, mas são mais uma curiosidade do que qualquer outra coisa (tipo o hotel de cápsula). Eu estou falando do ryokan de alto nível, mas não levem essa expressão a mal - é porque eu não consigo achar outra maneira de definir. Porque a essência do ryokan é fazer você se sentir confortável, bem-recebido, estimulado sensorialmente e em total e completa paz - tentar fazer de todos nós Budas por um dia. Só que eles conseguem fazer isso em níveis diferentes. Aos que se esmeram nessa arte, direi que são de alto nível então. Mas a verdade é que quanto mais alto nível ele é, mais simples ele parece. É um lugar onde toda a delicadeza e refinamento da alma japonesa se convertem numa experiência lúdica, mágica e perfeita. Por uma noite, o mundo é como deveria ser. :) Pra dar uma idéia mais concreta, vou relatar brevemente minha experiência com o ryokan Kuramure, onde estive recentemente com meus pais. Pra começar, os caras te mandam, com 3 semanas de antecedência, um questionário com perguntas do tipo: 'que horas você vai chegar na estação de trem? que horas parte? quantos homens e quantas mulheres em cada suíte? restrições alimentares? que horas quer jantar? que horas quer tomar café-da-manhã?', etc. Respondidas as perguntas, 5 dias antes eles mandam outro e-mail para confirmar sua ida e se os detalhes permanecem os mesmos. No dia da chegada, às 15:44, na ala sul da estação X, está um motorista fardado ao lado de um micro-ônibus e segurando uma placa do Hotel. Ele pega suas malas e vocês seguem para o local. Lá chegando, três funcionários estão na porta do ryokan, e inclinam-se respeitosamente em boas-vindas. Um deles, encarregado da sua estadia, leva o grupo até a recepção, onde 1 minuto depois é servido um refrescante chá gelado com um docinho japonês. Enquanto esta pessoa mostra o ryokan e todas suas dependências para você (sala de leitura, bar, sala de música, banhos públicos feminino e masculino, etc.), outro funcionário leva suas malas para a sua suíte. A decoração do lugar é moderna, minimalista e impecável. Na suíte, composta por um hall de entrada, uma sala, dois quartos (todos em tatami), um banheiro e uma sala de banho, há tudo que você poderia precisar e um pouco mais. Cada pessoa recebe dois conjuntos de vestuário tradicional japonês - um para circular no ryokan e outro para dormir. Todos os produtos disponíveis ali, desde o shampoo até o chá verde, são do bom e do melhor. Da janela da sala, no segundo andar, pode-se ver um estreito jardim japonês ladeando pequeno riacho; uma cortina de árvores isola suas janelas de quaisquer outras propriedades vizinhas. A sala de banhos, com uma enorme banheira de granito, é servida pela fonte de águas termais do ryokan. Essas fontes também alimentam os quatro grandes banhos públicos (externos e internos, para homens e mulheres). A banheira fica ao lado de outra grande janela, que pode ser aberta para que o som do riacho possa ser ouvido durante o banho. Na hora do jantar, um funcionário vem à sua porta e lhe escolta até uma sala privada de refeições. Ali, por duas horas, você é servido de uma infinidade de pequenas porções de cozinha 'kaiseki' - a mais tradicional e sofisticada do Japão. Bebidas (qualquer uma, não só no restaurante, como também no bar e na suíte) são por conta da casa. No café-da-manhã, ocorre a mesma coisa. Por fim, repete-se o ritual do trajeto ryokan-estação. Os funcionários inclinam-se mais uma vez do lado de fora do prédio, e permanecem assim por mais alguns segundos depois que o busú vai embora. Eu sei que vocês estão pensando: 'porra, quanta frescura'. Eu sei que parece - mas não é. Porque, uma vez que você percebe que o objetivo do ryokan não é simplesmente te _hospedar_, e sim te proporcionar uma experiência, você se dá conta que nada ali é excessivo. Afinal, tanto o excesso quanto a negligência afetariam negativamente o propósito da coisa toda. A arte da coisa está no equilíbrio, e ela vem sendo refinada há centenas de anos. Por isso, recomendo que, se um dia passarem por aqui, reservem alguns dinheirinhos para isso. Talvez nem seja a sua onda, mas não custa entrar na brincadeira por um dia. E se gostar, como eu, opções não faltarão!!! :))
Confessado por Bera-chan às 15h07
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