Revolta I – De volta à infância
Se ainda me restava alguma dúvida sobre o fato de que o meu emprego atual, em muitos aspectos, se assemelha a uma escola de II Grau, essa dúvida foi dissipada na semana passada.. Estava eu humildemente sentada, tentando transpor a barreira das 300 páginas de um livro de mais de 600, escolhido a dedo por meus superiores, quando aparece algo o mais próximo possível de uma coordenadora escolar. Ela começa a proferir sermão contra o baixo quorum na sala designada para a leitura e incumbe os quatro presentes da tarefa de transmitir aos ausentes a mensagem sobre o caráter obrigatório (constitui uma ORDEM, lembram-se?) da presença naquele recinto durante todo o horário de expediente, blablablabla. Desde os 15 anos não passo por experiência semelhante.
Revolta II – As Irmãs de Madalena
Sexta-feira à noite, nada pra fazer, TV a cabo paga, resolvo assistir a um filme antes de dormir. Escolhi um título chamativo (Em nome de Deus é o título no Brasil de The Magdalene Sisters de Peter Mullan, 2002). Estava preparada para desistir na metade e ir procurar algo mais interessante ou dormir mais cedo. Não imaginava ter escolhido um filme tão indispensável – não tanto porque seja bom, mas porque revela uma história que precisa ser conhecida – quanto esse. Perdi o sono, é bem verdade, antes mesmo de saber que o que estava sendo retratado ali era nothing but the truth. Mas acho que, justamente por esse pequeno detalhe, valeu muito a pena. Não vou contar o filme, mas PRECISO escrever sobre o que acontecia com as mulheres na Irlanda do século XIX até a década passada. E preciso também recomendar que o vejam.
Existiam (até 1996!), naquele país, lavanderias gerenciadas por "irmãs" de "caridade" da Igreja Católica que faziam uso de mão de obra escrava. Mas não qualquer mão de obra. Trabalhadores de um tipo bem específico: meninas trazidas, no mais das vezes, por suas famílias para expurgarem suas almas, por meio do trabalho e da reclusão à vida religiosa, de seus graves pecados. Como é fácil deduzir, o gravíssimo pecado de que estamos falando é o de ter tido uma relação sexual. Tanto faz se a relação foi consentida ou se a menina foi estuprada ou até se ela é bonita demais e configura tentação para os pobres rapazes de sua convivência. A boa sociedade católica irlandesa, com a conivência do Estado, preferia levar suas "meretrizes" para um lugar onde não pudessem desonrar o nome de sua família.
A instituição era um exemplo de respeito à dignidade da pessoa humana: além de não receberem um centavo por passarem o dia esfregando roupa (entre outras coisas, que deixo para a imaginação de vocês), as reclusas eram proibidas de conversarem entre si (ao menos na frente das religiosas), além de serem privadas de qualquer contato com o mundo fora dos muros da lavanderia. Toda manifestação de desobediência, assim como toda tentativa de fuga era severa e exemplarmente punida com as devidas chibatadas. As internas eram levadas a pensar, de maneira bastante persuasiva, que nada valiam e que não tinham melhor opção do que ficar ali. A maioria absoluta se entregava ao terror. Algumas viravam também freiras, outras ficavam toda a sua vida enclausuradas, passando a ajudar as religiosas a vigiar as mais jovens.
Acho que isso foi o que mais me revoltou. Eram mulheres, em sua grande maioria, as que torturavam e massacravam outras mulheres. É impressionante constatar como a deturpação da religião pode levar o ser humano a relegar a si mesmo um julgamento tão abominável sem nem mesmo dar-se conta disso. O desprezo com que as freiras tratavam as internas denunciava o ódio que tinham do que mais as faziam sentir, elas mesmas, desprezíveis: era o fato de terem nascido mulheres! É como se os caracteres sexuais definissem o valor do indivíduo perante Deus! O homem, i.e. humano do sexo masculino, é o ideal de Deus, o mais próximo de Deus, que pode ter prazer, pode viver plenamente e ainda viver em comunhão com Deus e a Igreja. As mulheres, para ter algum valor, como as freiras e as que se casam virgens, com homens que não o são, obviamente, têm de renegar sua vida, seu corpo, sua sexualidade. As demais são intrinsecamente impuras, seres nojentos que precisam expiar com trabalho e renúncia, aos olhos de Deus, o fato de que nasceram com uma vagina para que, depois de mortas, recebam, finalmente, a salvação! E não me venham dizer que o homem também deve praticar a castidade, etc., etc. Estamos falando do final do século XX! (Se não aceitarem outro argumento, aceitem pelo menos o de que as mocinhas deixaram de ser virgens com mocinhos, que não foram parar em lavanderia nenhuma).
À parte a questão religiosa, há outra coisa bastante revoltante. Alguém já havia ouvido falar dessa história antes?! E do filme??? Isso porque, descobri hoje, ele ganhou o Leão de Ouro em Veneza 2002. Por que nunca citam o exemplo das lavanderias La Magdalene (seu nome comercial) em discussões sobre violação de Direitos Humanos, conflito Estado/Igreja, exploração de menores, exploração de trabalho escravo??? Acho que a razão é simples. Estamos falando de um tema que é tabu desde sempre: a sexualidade feminina. Tudo bem, existe coisa mais escabrosa por aí e de que se fala bastante. É a mutilação genital feminina, que vem crescendo no mundo, segundo a ONU, em vez de diminuir. Mas, nesse caso, é fácil aludir a diferenças civilizacionais, apesar de que isso não tem se sustentado à luz do Direito Internacional. Agora, o que dizer sobre esse massacre cometido até 1996 – quando a última lavanderia foi fechada, não por decisão judicial ou governamental, mas por pura falta de demanda na era da máquina de lavar! – em um país ocidental, rico, católico?! A Igreja considerou o filme fruto de ressentimento. Sem mais, antes que chore, de raiva, na frente do computador. Os links abaixo trazem mais informações.